Declaração ao Dia Internacional da Água

Declaração ao Dia Internacional da Água

Março 22, 2017

Rio São Francisco

Na data de 22 de março é comemorado o Dia Internacional da Água. A ONU escolheu esse dia para nos lembrar da importância que esse bem comum tem para o mundo e alertar da necessidade de cuidar com carinho desse recurso. Com a palavra, Marilu Dumont:

 

Minas Água Doce

por Marilu Dumont

Águas doces criam itinerários. Margeiam montanhas, pés de serra: Serra da Canastra, Serra do Espinhaço, Serra da Mantiqueira, Serra do Caparaó. Saltam fronteiras como veios e veias pulsantes tornando o mapa vivo e brincante. Envolvem as Minas e os Gerais, dando a melodia, o movimento, o inesperado e os tons da vida do povo das margens. Influenciam-nos em seu fazer cotidiano, na sábia e bendita cozinha, integram gentes e territórios, trazem o novo e também o velho, que se ressignifica na força vital das terras e águas humanizadas.

Escorrem por entre montanhas e serras, brincam de aguapés entre abismos, planícies, planaltos, chapadas, veredas, grotas e boqueirões. Brotam do cerrado e das matas e lá se vão como rios e riachos que nos unem ao Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, Bahia, Goiás, Distrito Federal e ainda aos países da bacia Platina.

Dão identidade ao povo mineiro e criam laços que formam esse importante patrimônio cultural imaterial. Águas que estabelecem vínculos de pertencimento e resultam em importante patrimônio cultural imaterial transmitido por gerações. Fluindo com elas, a vida e o fio bordam aspectos tradicionais e contemporâneos. Águas subterrâneas, as de superfície - trajetos naturais que seguem cumprindo sua missão de entrega, trabalho e comunhão: transporte, abastecimento humano, pesca, lazer, pecuária, extração de minérios e cultivo de alimentos da boa cozinha mineira.

Nos barrancos, a vida em seus movimentos - cidades, gente trabalhando, fazendo festa, sofrendo, superando, brincando. Homem, fauna e flora integram o fluxo das correntezas e seguem criando convergências.

Veredinhas e os rios mais caudalosos estão representados por nove bacias hidrográficas que aqui se tornaram unidades de planejamento. Águas doces que vêm de tudo quanto é lugar. Dos campos gerais, dos campos rupestres, cerrado e matas tropicais.

Assim imersa, mergulhada na atenção que precisa ser dada para as águas doces em sua confluência com a totalidade planetária, sinto que, do azul dos rios de Minas, todos carecem de desvelo e sensibilidade, no sentido da humanização e tecnologia para um planejamento para o uso sustentável: olhos d’água, lagoas, corguinhos, riachos em estreita relação com seres que habitam suas margens.

Dos lugares de onde nascem nos planaltos de Minas, tantas e muitas paragens: nascentes do cerrado, dos campos gerais, dos campos rupestres, matas tropicais. Vem de tudo quanto é lugar. Por isso, os nossos cursos d’água, desde os pequeninos até os mais caudalosos, estão representados por nove bacias hidrográficas que se tornaram unidades de planejamento. Esta divisão contribui para entender o conjunto do que acontece em um território e carece de ser tão flexível que nos permita olhar para cada uma delas e desvelar os entrelaçamentos entre o mundo natural e o da cultura, recriados pelo povo que habita aquele espaço e lugar.

 Muitos são os gestos inadequados e desrespeitosos na relação homem e natureza. Daí a necessidade de ampliar o diálogo, tendo em vista o uso múltiplo das águas, ações integradoras e transdisciplinares que promovam qualidade de vida. Todo curso d’água corre à espera de um olhar que conjugue tecnologia e sensibilidade nas agendas de sustentabilidade.

Do meu pai ouvi tantas histórias que me deram familiaridade com as águas dos rios São Francisco, Velhas, Paraopeba, Urucuia, Paracatu, e de pequenos afluentes que nos banham de encantamentos, como o Rio do Sono, Formoso, Jenipapeiros, Doce e Areia, Sobrado, Cedro, Sussuapara.

O que ampliou profundamente meu interesse pelos outros rios, além do meu São Francisco, foi ter ouvido também as histórias, impressões sobre gente e lugares na voz de Wilson Diniz, meu tio. Barranqueiro, viajante, vendedor de tecidos, fazia de tudo que seus olhos viam uma narrativa cantada. Falava da vida em torno das águas como se ouvisse delas um trecho da nona sinfonia de Beethoven e o Trenzinho do Caipira das Bachianas Brasileiras nº 2 de Villa Lobos. Com tantas histórias de vida e de águas, uma certeza em forma de música brotou em mim. Sim, a vida acontece em torno das águas.

Texto de Marilu Dumont para livro Povo D’água, comemorativo dos 50 anos da COPASA – setembro 2013

Deixemos que o Dia Internacional da Água nos mostre que crescemos enquanto seres humanos quando permitimos nos aproximar da natureza ao redor e assim sentir que somos parte dela.